quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cena II


Imagem: Andrey- Remnev

Havia um gesto oculto naquele olhar que me desafiava à dominação, sem notar quem se rendia. Fui cativado pelo olhar escuro da melancolia. Quanto tempo sobrevivi até que a morte esquecesse o seu nome? Nem me lembro. E agradeço esse milagre que ameniza a amargura. Fui amenizado na doçura da sua boca, na emancipação do calendário. Quando senti a sua falta pela primeira vez, compreendi que sempre a sentiria, como se o seu corpo fosse o rastro do vermelho e eu quisesse dominá-lo! Comecei a desejar mais do que antes me dispunha. Este é o primeiro paradoxo egoísta do amor e a sua primeira premissa. Aquele que muito deseja é consumido na tragicomédia em que ninguém atravessa ileso.




sábado, 26 de novembro de 2016

Flor do sal

Igor Goncharov



Puxar o fio da meada é como alongar
a vida numa extensa linha
desde a primeira fagulha da infância.
Acender contigo é como respirar
num instante branco.
Suspensa na ausência das horas 
Na expectativa afoita de adivinhar o sol em seu rosto.






Seguir os rastros que se alinham
em orações que se demoram.
Tecer um verso antigo no perfume
prematuro do orvalho.
Tocar os pontos do seu corpo
e descrever os vestígios da glória.
Supor-Te infinito agridoce.
Beber-te líquido
para compaixão de um nome.   
Do Poente ao breu da noite
Entregar-Te
ao silêncio da morte.


(Ab) sorver-Te gota a gota.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Estive diante  do seu canto anunciado:
 - Uma extensa onda de sono e a noite
  me  excedia.


No efêmero da sua boca,
como  uma linguagem de volúpia espessa
 o seu corpo oferecia  promessas de sal
e flores ao infinito.







Metáforas da vida eterna
teciam ao mar as  armadilhas de escarpas :
- Como os rumores das  vozes urgentes
 tornando –se  cúmplices e  espelhos.










O  gesto seguindo a respiração
 de um  parto, pulsando  no interior
do tempo,


o nascimento e  a ausência
do silêncio absoluto do poema.

domingo, 8 de maio de 2016

Ode a Orfeu

Sentir é dois:no beco sem saída
dos corações não há templos de Apolo. (1)

 





Consumar-te em marés de espuma
é amar-te como o olvido da palavra
ao som das ondas, modelando o sal
da água no campo fluído do oceano.







“ Me reconheces, ar, nas tuas velhas lavras? ” (2)







Um verbo. Um sopro. Um vento.
A Sua voz movendo os astros do caminho
e o rastro do lápis nas folhas do Tempo....







“ Se beber te é amargo
Faz-te vinho. ” (3)






Voragem e vertigem em sua Boca
O mar da morte é  também distância.
Que nome escreve a mão do homem
no interminável instante em que fere

o silêncio de mármore- da sua máscara branca?







(1,2,3)- Rainer Maria Rilke, 
Sonetos a Orfeu.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015




Era verão num campo que exalava o aroma

de  fruta amadurecida na estação.

Aurora sabia que a transformação que sofria

não era senão o velho entardecer.


Avançando ao longo do caminho


como quem ultrapassa o gesto voraz

da palavra  líquida e toca  a vertigem

da letra escarlate: amando até que a morte 



(Incandescente)




repouse a lembrança do corpo esquecido

no tapete branco do Mundo.